Sem atendimento, dona de casa morre de Covid em casa: ‘Estava se despedindo’

22 Fev 2021 Fonte: SOFIA MAYER, FLORIANÓPOLIS Destaques
Nara morreu em casa, no início da manhã de sexta (19) – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/ND

Nara morreu em casa, no início da manhã de sexta (19) – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/ND

Foram pelo menos seis ligações para o Samu antes de Nara Regina Rosa, de 41 anos, morrer de Covid-19 em casa, junto ao marido, André Tavares Frassetto, na manhã desta sexta-feira (19) no bairro Capoeiras, em Florianópolis.

Aposentada há cerca de cinco anos por causa de uma doença rara no pulmão, conhecida como Boop (Bronquiolite Obliterante com Pneumonia em Organização), Nara havia testado positivo para a Covid-19 no último domingo (14), após crises intensas de falta de ar.

No mesmo dia, ela foi encaminhada ao Hospital Florianópolis, que é referência para o tratamento do novo coronavírus na Capital e, após uma série de exames e diante de um hospital atuando no limite da capacidade, a dona de casa foi liberada da unidade, permanecendo em observação.

 

“Os exames deram bons, a única coisa que pegou foi a pressão, por causa dos remédios”, conta André. Uma mancha no pulmão até foi registrada nas imagens laboratoriais, mas a equipe médica acreditava que fosse uma consequência do Boop. De acordo com André, as dificuldades respiratórias também haviam dado uma trégua à paciente.

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“Estava se despedindo de mim”

Na noite de quinta-feira (20), porém, Nara sentiu dores severas na região onde a mancha havia sido verificada. “Fiz massagem, e ela disse que deu uma aliviada”, contou André, que ainda ofereceu medicação à esposa.

A situação piorou no começo da manhã, às 5h48, horário da primeira ligação feita ao Samu. “Ela tava me agradecendo, parecia que ela estava se despedindo de mim”, lembra André. Quando a ambulância chegou, depois de algumas tentativas de contato, o marido já lutava sozinho para manter a esposa viva, realizando massagens cardíacas. A ambulância, no entanto, não tinha oxigênio para a paciente.

Nara tinha uma doença pulmonar grave – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/ND

Nara tinha uma doença pulmonar grave – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/ND

A orientação da equipe era de que Nara fosse de carro à unidade de saúde. Segundo os profissionais,  a paciente não seria aceita nos hospitais se chegasse de ambulância, por causa da alta lotação nos hospitais. André, que é motoboy, até tentou procurou uma carona com os vizinhos, mas ninguém atendeu. Vendo a piora no quadro da esposa, ele chamou novamente a emergência.

Às 6h11, momento da última ligação ao Samu, André conta que já havia perdido a esposa. “Foi fulminante”, revelou André.

Nara deixou marido e três filhos, com 20, 19 e 12 anos. Aposentada por invalidez, ela tinha muito medo da Covid-19. Por saber da condição de saúde delicada da esposa, André também se cuidava ao máximo, durante o trabalho, para evitar contágio em casa. “Sempre de máscara, muito álcool gel”, disse.

Casos graves devem ser atendidos, diz Samu

De acordo com a Central de Regulação do Samu, não existe orientação para que os profissionais não mandem pacientes para o hospital, mesmo em caso de lotação nas unidades de saúde.

O protocolo é de que seja realizada uma triagem para observar, atender e tentar entender o quadro do paciente. Se for grave, segundo o Samu, os atendentes devem encaminhá-lo a um hospital.