A palestra do economista-chefe do Sistema Farsul e CEO da Agromoney, Antonio da Luz, foi marcada por um alerta sobre o cenário fiscal brasileiro em ano eleitoral. Logo na abertura, ele lançou a pergunta: “Para onde estamos indo em termos econômicos em um ano de eleições”?
Segundo o especialista, um dos principais fatores de deterioração fiscal é a expansão do gasto primário. Ele apontou como marco inicial a PEC da Transição, que, conforme afirmou, promoveu uma expansão fiscal sem precedentes em período de normalidade econômica. A emenda autorizou aumento de R$ 145 bilhões no teto de gastos para 2023, além da exclusão de outras despesas do limite.
De acordo com os dados apresentados, a despesa primária do Governo Central, que entre 2017 e 2021 cresceu em média 0,6% ao ano acima da inflação sob a vigência do teto, avançou 7,6% em termos reais em 2023, desconsiderando o pagamento extraordinário de precatórios. Para o economista, o movimento representa mudança estrutural. “Não foi um evento pontual, mas o marco de uma nova dinâmica de crescimento permanente dos gastos”, diz ele.
Antonio também destacou que o governo retirou R$ 48,7 bilhões em despesas do cálculo oficial, incluindo R$ 41,15 bilhões em precatórios, R$ 2,83 bilhões em ressarcimentos a aposentados e pensionistas e R$ 2,5 bilhões em projetos estratégicos de defesa nacional. Na avaliação dele, o resultado fiscal alcançado não reflete ajuste estrutural. “O ponto central é que o cumprimento da meta fiscal de 2025 foi um feito mais contábil do que gestão fiscal efetiva”, completa.
O economista argumentou que, embora as regras formais estejam sendo cumpridas, a trajetória das contas públicas segue pressionada, com dependência de exceções para atingir metas. Ele ressaltou que o aumento da dívida eleva o prêmio de risco do país, pressiona juros e desestimula investimentos. Em economias emergentes como o Brasil, afirmou, o endividamento elevado reduz a capacidade de reação a crises futuras. “O problema estrutural é o fato de despesas e receitas que não fecham. A ampliação do Bolsa Família são permanentes e as receitas para financiá-las são em grande parte, temporárias”.
Ao projetar o cenário à frente, o economista mencionou a existência de um “buraco fiscal futuro, que precisa ser coberto ou com novos e sucessivos aumentos de tributos, ou com um ajuste de gastos que a regra fiscal atual não favorece”. Ele acrescentou: “Quanto maior a dívida, maior os juros e a inflação. Para compensar e tentar fechar a conta, a solução encontrada pelo atual governo é aumentar a receita tributária”.
O agronegócio, segundo ele, já sente os efeitos desse ambiente. A inadimplência no setor alcançou 6,5%. Com recursos concentrados na agricultura familiar, o crédito se torna mais restrito. Ele afirmou que, sem equilíbrio fiscal, os juros permanecem elevados para a produção. “Cuidem de seus negócios e não contem com o governo. Infelizmente, esta é a realidade”, aconselhou o economista.
A palestra integrou a 36ª Abertura Oficial da Colheita do Arroz e Grãos em Terras Baixas, realizada na Estação Experimental Terras Baixas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, em Capão do Leão. O evento é promovido pela Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul, com correalização do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural e patrocínio do Instituto Rio Grandense do Arroz.
Agrolink – Seane Lennon


