No distrito de Eliza, em Xambrê, a cerca de 41 quilômetros de Umuarama, uma casa simples guarda uma história que atravessa mais de um século. Na última quinta-feira (26), Augusta Maria de Jesus completou 108 anos, cercada por filhos, netos e bisnetos, que reconhecem nela o alicerce da família.
Ela nasceu em 26 de fevereiro de 1918, em Montes Claros, no estado de Minas Gerais. Desde então, viu o mundo mudar inúmeras vezes, enfrentou desafios silenciosos e construiu uma trajetória marcada por trabalho duro, fé constante e dedicação incondicional aos seus.
Trabalho e raízes no interior
Ainda jovem, aprendeu o peso e a dignidade da vida na roça. Trabalhou na cultura do bicho-da-seda e no café, enquanto mantinha a casa organizada e os filhos sob seus cuidados, sempre com firmeza e carinho.
Antes de se estabelecer em Eliza, onde vive há 28 anos, morou em Pérola e em Cruzeiro do Oeste. No entanto, foi em Xambrê que viu a família crescer e se multiplicar ao redor de sua história.
Mãe, avó e referência de cinco gerações
Augusta teve quatro filhos biológicos e criou dois sobrinhos como se fossem seus. Mais tarde, também assumiu a criação de duas netas após a morte da mãe das meninas, ampliando ainda mais o círculo de cuidado que sempre marcou sua vida.
Ao longo dos anos, enfrentou despedidas dolorosas. Dois filhos faleceram, e a perda de um deles, segundo a família, foi o momento que mais abalou sua saúde e marcou profundamente seu coração.
“Ela foi tendo vários problemas de saúde, mas o que levou ela ficar mais debilitada foi a morte de um filho”, contou a neta Marcilene. Desde então, ela está acamada há quase 12 anos, por causa de problemas de mobilidade.
Lucidez e carinho que atravessam o tempo
Ainda assim, a fragilidade física não apagou sua presença. Com um sorriso largo e olhar atento, ela conversa, escuta e revive histórias que surpreendem até os mais jovens da família.
Hoje, são 14 netos e 21 bisnetos que reconhecem nela a raiz de tudo. Cinco gerações se encontram ao redor de sua cama, transformando visitas em encontros cheios de memória, risos e emoção.
A lucidez impressiona. “Ai de quem prometer alguma coisa pra ela e não cumprir ela lembra. Nossa vó é como uma criança pra nós, ela é nossa bebezona, amamos muito ela”, disse Marcilene, revelando o carinho que envolve a matriarca.
Fé como sustento da vida
Apesar das limitações, ela não enfrenta outras enfermidades atualmente. Além disso, mantém uma rotina simples, marcada por conversas, lembranças e demonstrações de afeto que atravessam o tempo.
A fé, porém, sempre foi o fio condutor de sua vida. Católica devota de Nossa Senhora, reza todos os dias e faz questão de receber o Ministro da Eucaristia aos domingos, já que a igreja fica ao lado de sua casa.
Mesmo nos momentos mais difíceis, a espiritualidade falou mais alto. “Quando ela estava bem debilitada, ela pediu para que nós rezássemos a novena de Natal com o grupo da igreja que foi na casa dela e mesmo em cima da cama ela participou com toda a alegria e fé”, relembrou a neta.
Um legado que permanece
Atualmente, quem cuida dela mais de perto é a nora Maria, esposa do filho mais velho, Benjamim. No entanto, toda a família participa, porque estar ao lado de vó Augusta é também uma forma de agradecer por mais de um século de amor e dedicação.
Assim, aos 108 anos, Augusta Maria de Jesus transforma sua própria trajetória em legado para cinco gerações. Mais do que números, sua idade representa resistência, fé e um amor construído no cotidiano simples do interior.
Sua história ultrapassa as paredes da casa onde vive e ecoa na memória da família. Enquanto o tempo avança, vó Augusta permanece como símbolo de união, lembrando que uma vida inteira pode ser medida, sobretudo, pelo afeto que se deixa.


