(Foco no solo e na rentabilidade) Família Kerber, de Erval Seco (RS), está investindo para melhorar qualidade do solo

A Segunda Guerra Mundial mal tinha acabado quando o casal de descendentes de alemães Norberto e Irmgard Kerber resolveu abrir uma oficina mecânica, em 1947, com outros dois sócios no município de Iraí, divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina. Em 1957 surgiu a oportunidade da compra de 600 hectares de terra em Erval Seco, também no norte gaúcho. Era uma área com muitos capões de mato e capim barba-de-bode, mas, mesmo assim, o casal e os sócios fecharam negócio. Eles decidiram cultivar trigo e milho e, para isso, tomaram financiamento para compra de tratores, colheitadeira e implementos importados. Estradas precárias, clima irregular e dificuldades para armazenar e comercializar a produção prejudicaram os planos de ganhar a vida com grãos.

A segunda tentativa foi a criação de gado zebu, mas uma onda de frio acompanhada de neve matou 70 animais. A perda levou também ao fim da parceria com os dois sócios. Descapitalizado, o casal decidiu, em 1970, arrendar a área para produtores de soja e assim se manteve por quatro décadas. O arrendamento permitiu que eles pagassem a faculdade dos filhos.  

Sete anos após a morte do pai, em 2004, o filho Romeu, já formado em Odontologia, entendeu que era o momento de retomar a produção de grãos, agora com o auxílio dos filhos Eric e Romel. Mas a arrancada foi decepcionante: apenas sete sacas de soja por hectare devido a uma estiagem prolongada. A recuperação começou a vir com a safrinha de milho e com o trigo cultivados na sequência. Nessa nova fase, o filho Eric divide as tarefas com o pai e ainda faz a maior parte dos consertos do maquinário. Romeu também ajuda, mas nos momentos em que não está envolvido em suas atividades profissionais. Para realizar as tarefas nos 220 hectares de cultivo, os proprietários da Agrícola Kerber (AK 57) contam, ainda, com o trabalho de um funcionário, Eduardo Fischer, “uma pessoa muito eficiente”, diz Romeu.

RETORNO AO TRIGO

Os Kerber se associaram à C.Vale de Palmeira das Missões e, agora em 2024, voltaram ao cultivo de trigo depois de nove anos. Eles tinham desistido da cultura depois de uma safra prejudicada por chuvas e doenças que deixou contas a serem pagas ao longo dos dois anos seguintes, já que a lavoura não era coberta por seguro. Quem convenceu Romeu e Eric a retomarem a triticultura foi Alesandra Reis, consultora técnica da C.Vale. Ela argumentou que a palhada do trigo ajuda no controle de plantas daninhas. O trigo entra no esquema de rotação de culturas que inclui soja, milho, aveia e linhaça.

O foco dos Kerber, pelos próximos anos, será melhorar a qualidade do solo. A C.Vale já realizou o levantamento de agricultura de precisão em todos os 220 hectares de cultivo. A correção do solo será feita gradualmente, começando por ajustes nos teores de alumínio, boro e enxofre. “É um investimento que tem que ser feito porque se o solo não corresponde, não adianta”, explica Romeu.

RENTABILIDADE

Na casa da sede da propriedade, contornada por uma longa fileira de árvores, Romeu alterna a conversa com uma cuia de chimarrão ao lado da esposa Erla. A água quente inflama os ânimos do gaúcho com aqueles que fecham contratos de arrendamento de terra por valores acima do que a rentabilidade dos grãos pode sustentar. “O ganancioso vai morrer junto com o que paga”, alerta. Ele entende que as empresas do agronegócio deveriam fazer uma campanha para esclarecer sobre a questão. Romeu sustenta que o produtor deve levar em consideração o quanto vai sobrar antes de fechar um arrendamento. “Eu planto para sobrar, então tenho que saber quanto vou gastar. Não adianta produzir bastante e não sobrar praticamente nada”, justifica.

A indignação do gaúcho logo desaparece quando ele resolve puxar outro assunto. Romeu diz que a estrutura de trabalho da propriedade funciona bem por um motivo. “A minha esposa, a Erla, que cuida da retaguarda, da casa, ela dá condições de a gente trabalhar”, assegura. O reconhecimento deixa toda faceira a “patroa” que está há 43 anos ao lado de Romeu. Mais faceiro ainda o casal fica quando o neto Rommel aparece para dividir um churrasco de Angus assado bem ao estilo gaúcho, apenas com sal grosso.

RAIO X

FAMÍLIA KERBER

Local: Palmeira das Missões (RS)

Área de cultivo: 220 hectares

Renda: soja (40%); milho, linhaça e trigo (60%)

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