Tensão, gol e emoção: D,Alessandro resplandece

Aos 41 anos, meia se despede do futebol pelo Inter com vitória de virada sobre o Fortaleza diante de um Beira-Rio delirante

Quem se acostumou a ser protagonista, não deixaria o futebol como um coadjuvante. Ainda mais diante da torcida que tanto ama e no estádio que transformou em casa.

Na "Última La Boba", como o Inter definiu a despedida, D'Alessandro fez o que ofereceu aos torcedores durante as três passagens no Beira-Rio. Na noite de domingo, saiu ovacionado pelos fãs após uma atuação de luxo com direito a gol na virada por 2 a 1 sobre o Fortaleza.

– Eu não sonhava assim tão perfeito. Queria me despedir com vitória. Mas fazer um gol, cara… Muitos dizem que tenho uma estrela diferente, mas, como eu falo, é merecimento, trabalho. Estou no lugar que eu quero, encerrei onde eu queria – afirmou um emocionado D'Alessandro.

O que aconteceu é incrível. Meus amigos brincam comigo que eu tenho estrela, que no momento que eu preciso alguma coisa acontece.

A emoção acompanhou o argentino de 41 anos recém completos durante todo o domingo. Quando o ônibus do Inter entrou no pátio do Beira-Rio, foi engolido por um mar vermelho ao som de "D’Alessandro! E dá-lhe, dá-lhe, D’Alessandro".

Ao sair do veículo para entrar no vestiário, recebeu cumprimento até de um policial. No aquecimento, os cânticos prosseguiram, circundados por cartazes e bandeiras ao ídolo. D'Ale lutava contra as lágrimas, sem deixar de agradecer aos súditos.

O agora lendário camisa 10 deixou de lado qualquer dúvida se o jogo, válido pela segunda rodada do Brasileirão, seria festivo. Aliás, a titularidade já foi uma surpresa promovida pelo interino Cauan de Almeida.

– Passou por dois fatores. Primeiro, técnico. Com a ausência do Taison, (D'Ale) conseguiu fazer a função de armador, por mais que tenha começado em uma função por fora, de combinação com o Bustos. Mas também pelo aspecto emocional. A equipe precisava da energia dele, do estádio – disse o auxiliar.

Em campo, mesmo quando a bola não chegava, D'Alessandro voltava até o campo defensivo para organizar e levar o time ao ataque. O Fortaleza tentava estragar a noite de celebração dos colorados.

E o susto veio. Já nos acréscimos do primeiro tempo, Johnny puxou Landázuri na área. O VAR avisou o árbitro, que foi ao vídeo e marcou o pênalti, convertido por Yago Pikachu, aos 50.

Tensão. Será que o Inter perderia no último ato do meia? Mas o próprio D'Ale, ao seu melhor estilo, tratou de colocar o jogo no trilho novamente. Afinal, sempre se indignou com a adversidade. Agora não seria diferente.

No minuto seguinte ao gol adversário, Bustos acionou o compatriota, que dominou no peito, passou por dois marcadores e deu um chute forte. O goleiro tocou na bola, mas ela morreu no fundo da rede. Êxtase dos 36.573 presentes.

Após marcar em vitória do Internacional, D'Alessandro fala sobre despedida: "Hoje eu encerro um sonho"

O gringo marcava o 97º gol pelo clube gaúcho na partida de número 529 – é o segundo jogador que mais vestiu a camisa vermelha. Correu tresloucado pelo gramado, entre a mão na cabeça e beijos aos torcedores. Os colegas saíram em disparada, tão empolgados quanto o parceiro, que sumiu para reaparecer erguido entre eles.

– O gol fechou toda uma história que eu não imaginava, que foi perfeita. A ficha ainda não caiu. Estou meio assim, no ar. Falei aos caras, que se jogavam em cima de mim: "calma, tem o VAR". Não sabia se estava impedido. Comecei a correr, se o VAR anula o gol… Graças a Deus, foi gol. A história fechou não como sonhava, mas como imaginava – destacou D'Alessandro.

Não precisaria mais nada. A festa estava completa. Só que ele queria mais. Voltou do intervalo e, pouco depois, passou por nova provação: mais um pênalti para o Leão do Pici. Desta vez de Renê, que empurrou Robson na área aos cinco.

O "Cabezón", então, entrou em cena. Indignado com a decisão, esbravejou contra o árbitro Flávio Rodrigues de Souza. Recebeu o último cartão amarelo da carreira, algo que dividiu espaço com os passes primorosos e os gols

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Uma substituição para a história

O destino deu sobrevida ao Inter com o chute de Pikachu na trave. D'Ale ainda resistiu até os 25, quando a placa subiu para dar lugar a Boschilia. Antes de deixar o gramado, recebeu o cumprimento do árbitro, passou a braçadeira a Rodrigo Moledo, que o abraçou, assim como alguns rivais.

O carinho dos colegas também apareceu, em campo, com Boschilia e Rodrigo Dourado, quem o sucedeu como capitão ainda durante a segunda passagem e carregou a honraria até o ano passado, quando Taison voltou ao Beira-Rio.

Fim da carreira, aplausos de pé dos colorados e mais cumprimentos. Cauan, o gerente de transição Julinho Camargo, o massagista Juarez Quintanilha, o preparador de goleiros Daniel Pavan e reservas. D'Ale bateu no peito, beijou o escudo e abanou para a torcida.

O jogo parecia que terminaria empatado. Mas acabou com uma virada de um torcedor em campo. De família colorada, Alemão, que substituiu Wesley Moraes, recebeu de Boschilia aos 44 e mandou para o fundo das redes o presente a D'Ale e os torcedores.

D'Alessandro se despede do Inter, é homenageado e se emociona: "A partir de amanhã, vou ser mais um torcedor"

A festa estava completa. Era o momento do adeus. Tão logo após o apito final, o meia foi abraçado por Taison, recebeu as homenagens: apelos para não parar de jogar, um vídeo com momentos importantes, o abraço da família dentro de campo, o carinho dos amigos. Depois de tanto chorar, pegou o microfone:

– Estou no lugar que eu quero, encerrei onde eu queria. O River faz parte da minha vida, uma fase diferente da minha carreira, mas isso é inacreditável. A partir de amanhã serei mais um colorado torcendo pelo nosso clube.

Antes de deixar o campo, recebeu cumprimentos de personalidades coloradas, como o conselheiro Delcir Sonda, responsável por investir o dinheiro para sua compra, em 2008, dirigentes atuais e antigos.

Tirou fotos com amigos, gandulas e abriu os braços, como se quisesse abraçar os torcedores antes de entrar no túnel de acesso ao vestiário. Gonzalo, o filho gaúcho, saiu agarrado em suas pernas.

D'Alessandro deixa os gramados. O futebol perde a visão de jogo, o drible malicioso, o chute com categoria e as incontáveis reclamações. O Inter, o seu líder. Mas o torcedor em campo agora se junta aos seus.

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O agora ex-jogador será mais um na arquibancada, entre cânticos, para que o time deixe a fase conturbada e reencontre os títulos que o argentino conquistou na primeira passagem.

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